Escrito por: Eduarda Fernandes, colunista iDinheiro
Em alguma circunstância você já deve ter tido contato com a possibilidade de adquirir um consórcio com a intenção de ser uma opção viável de investimento.
De fato, o consórcio é uma ótima forma de acumular patrimônio, principalmente para aqueles que têm mais dificuldade em fazer o que diz aquela frase conhecida por quase toda a população brasileira: “juntar dinheiro”.
Mas antes de dar seguimento e analisar se o consórcio pode ser considerado um investimento e os motivos que circundam esse assunto, vamos dar um passo atrás e relembrar o que é e como funciona o consórcio.
O que é o consórcio?
De forma bastante resumida, apenas para relembrarmos o conceito para que fique claro a linha de raciocínio, o consórcio é definido pelo Banco Central como "a reunião de pessoas [...] em grupo, com prazo de duração e número de cotas previamente determinados, promovida por administradora de consórcio, com a finalidade de propiciar a seus integrantes, de forma isonômica, a aquisição de bens ou serviços".
Nesse sistema, o valor do serviço ou do bem é dividido em um período preestabelecido em contrato e todos os participantes do grupo devem contribuir no decorrer desse prazo.
Com isso, todos os meses a administradora contempla um ou mais integrantes do grupo com crédito no valor do serviço ou do bem contratado, até que todos os participantes sejam contemplados.
Vimos então que o consórcio é considerado uma via pela qual alguém pode adquirir algum produto ou serviço. Porém, sabemos que, para conseguir o bem, o interessado – denominado consorciado – deve pagar pelas parcelas para ser, futuramente, contemplado com a carta de crédito, a qual será utilizada como forma de pagamento.
Mas sabemos que a carta de crédito se torna um montante de dinheiro da pessoa que pagou por ela. Aqui entra o questionamento de muitos: o investimento também é um montante de dinheiro que a pessoa juntou e pagou por ele, portanto, consórcio também é um tipo de investimento, certo?
Errado. O consórcio não pode ser considerado um tipo de investimento simplesmente pelo fato de que o consórcio não gera retorno financeiro sobre o capital investido, tal qual o investimento.
Então, tudo bem, acredito que já tenha ficado claro que o consórcio não pode ser um investimento apenas se considerarmos a natureza prototípica dos dois conceitos.
Mas isso quer dizer que o consórcio não é um bom negócio ou ainda que o consórcio não pode ser considerado uma forma (popularmente conhecida) de “juntar dinheiro”, assim como um investimento? Vamos explorar alguns pontos.
O consórcio como uma ferramenta para acumular patrimônio
O consórcio, quando previamente planejado e estruturado, pode ser uma ótima ferramenta para quem possui dificuldades de acumular patrimônio, seja pelo medo de investir em renda variável, a qual oferece um nível mais elevado de risco, seja pela ausência de compromisso em separar uma parte dos ganhos mensalmente.
Vamos tratar esses dois pontos separadamente então. O primeiro grupo é o de pessoas que têm um certo nível de conhecimento sobre finanças, entende o que é e como funciona o mercado financeiro, sabe que existe a renda variável, mas não está disposto a entrar nela, muito pelo medo de perder seu patrimônio em suas baixas que naturalmente acontecem.
O outro grupo, porém, é o que contempla a maior parte dos brasileiros, talvez até mesmo você, leitor, que se deparou com este texto, e é nele que vou focalizar. Esse segundo grupo possui dificuldades de acumular patrimônio, mas não exatamente por um problema intrínseco, mas na maioria das vezes por uma imposição cultural-social – educação financeira precária, cultura de poupança baixa ou falta de instrução sobre gestão patrimonial.
Por esse motivo defendo a ideia de que o consórcio é um bom recurso para quem passa por quaisquer dificuldades acima mencionadas, pois a disciplina de pagar as parcelas também é uma forma obrigatória de acumular patrimônio sem os riscos associados a investimentos mais voláteis. Em outras palavras, ter um boleto para pagar todo mês obriga o investidor a ter o comprometimento de guardar dinheiro, mesmo que de forma compulsória.
A psicologia do consórcio para a realidade brasileira
Podemos ser mais maleáveis ao considerar o consórcio, sim, como forma de investimento porque temos que considerar, além de tudo, o contexto brasileiro, o fator social e o fator psicológico da relação desse povo com o dinheiro, que por vezes é visto como tabu, e ter a consciência de não colocar tudo dentro de caixinhas predispostas e incontestáveis.
E se essa for a única forma de conseguir "juntar dinheiro" para acumular um patrimônio relativamente alto, que seja então o caminho a se seguir! Conheço várias pessoas que apenas tiveram o montante de dinheiro para dar entrada na tão sonhada casa própria ou que tiveram dinheiro para pagar uma cirurgia imprevisível porque lá atrás decidiram fazer do consórcio o seu investimento.
Nesse sentido, como já dito na sessão anterior, devemos olhar para mais de um aspecto dessa relação turbulenta do brasileiro com o dinheiro antes de dizer de forma simples e nominal que o consórcio não é investimento. Não existe binariedade, oito ou oitenta, quando tratamos de coisas tão complexas quanto essas.
A segurança psicológica percebida por quem tem menor nível de educação financeira ou maior aversão a riscos está no fato de ser possível controlar o seu próprio dinheiro; essa mesma segurança não é percebida por quem se arrisca na Bolsa de Valores, por exemplo, por isso defendo a ideia de contemplar também os "investidores de consórcio" como um grupos de investidores à sua maneira.
Com tudo isso posto, vale reforçar alguns pontos positivos que o consórcio como ferramenta alternativa ao investimento apresenta, principalmente no que tange ao planejamento financeiro. Veja:
- Possibilidade de diversificação financeira, viabilizando que o consórcio seja usado em conjunto com outros instrumentos de investimento;
- Percepção de que o consórcio é mais seguro e tangível do que outros produtos financeiros, principalmente em um cenário de falta de educação financeira, cultura de poupança baixa e histórico de instabilidade econômica;
- Planejamento para aquisição de bens de alto valor, tornando-se ideal para quem deseja comprar um imóvel, por exemplo, permitindo maior controle financeiro e ainda com a possibilidade de ser contemplado logo no início dos pagamentos de parcela.
Tendo esses benefícios em mente, vale sempre ponderar se o consórcio de fato é uma boa opção para você e para a sua realidade.
Coloque esses aspectos em comparação com um investimento, pense se você terá a disciplina de investir e considere um consórcio como uma ferramenta para te ajudar a acumular um bom patrimônio.
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